MOSFILM e CPC-UMES: um intercâmbio cultural consagrado pelo tempo

Há mais de quinze anos, o Centro Popular de Cultura da UMES-SP procurou o Mosfilm com a ideia de exibir clássicos do cinema soviético no Brasil. Hoje essa parceria é mais do que apenas um festival anual, a Mostra Mosfilm; é um projeto cultural de grande escala que abrange dez estados do país, com exibições online, palestras e traduções diretas do russo. Os diretores da iniciativa brasileira relataram ao Mosfilm.ru como essa ponte singular nasceu e por que ela se baseia não na questão financeira, mas na fé na educação do espectador através do grande cinema.

Entre os principais entusiastas do projeto estão Valério Bemfica, presidente do Centro Popular de Cultura, e Bernardo Torres, diretor de operações do CPC-UMES Filmes. O CPC-UMES é um braço cultural da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (UMES-SP), uma entidade estudantil histórica. Há várias décadas o CPC desenvolve teatro, música e um cineclube, buscando proporcionar a jovens uma sólida formação em humanidades por meio da arte. Foi dentro dessa organização que surgiu um interesse particular pelo legado do Mosfilm.

A história começou entre os anos 2009-2010. A equipe do CPC buscava uma maneira de apresentar os clássicos do cinema soviético aos estudantes brasileiros, mas encontrar cópias de alta qualidade de muitos filmes no país se mostrou impossível. Então, segundo Bernardo Torres, surgiu uma ideia simples, porém ousada: contatar diretamente o Estúdio Mosfilm. "Realizamos uma pesquisa online minuciosa, encontramos as informações de contato do Mosfilm e escrevemos uma carta. Em seguida, Elena Orel (atualmente Chefe de Relações Internacionais e Distribuição do Mosfilm) entrou em contato conosco. Foi assim que tudo começou", conta Torres.

Nas origens do estabelecimento dos contatos com o Mosfilm também estava Susana Lischinsky, jornalista brasileira, comentarista de assuntos internacionais e ativista social. Em 2013, os representantes do CPC vieram a Moscou pela primeira vez com uma lista específica de filmes para discutir o licenciamento para lançamentos em DVD. A direção do Mosfilm prontamente compreendeu que não se tratava de um projeto comercial. "O diretor geral do Mosfilm, Karen Shakhnazarov, entendeu imediatamente que não éramos uma empresa visando lucro. Nosso único objetivo era trazer esses filmes para o Brasil, traduzi-los e exibi-los para estudantes, proporcionando-lhes uma educação cultural por meio do cinema", observa Bernardo Torres.

A PRIMEIRA MOSTRA MOSFILM E O NASCIMENTO DE UMA TRADIÇÃO

Um verdadeiro avanço aconteceu em 2014, ano do 90º aniversário do Mosfilm, quando o estúdio propôs organizar, no Brasil, uma grande exibição de sua programação comemorativa. O local escolhido foi um ponto icônico: a Cinemateca Brasileira, em São Paulo. O festival foi batizado de "Mostra Mosfilm 90 Anos" e foi um sucesso enorme.

"Foi muito mais do que estávamos acostumados a fazer", admite Valério Bemfica. "Mas a experiência foi incrível. O sucesso da mostra inspirou a equipe a pensar: por que não tornar esses encontros com o cinema soviético e russo um evento anual?"

Desde 2015, a Mostra Mosfilm se tornou um evento permanente e, consequentemente, evoluiu para um festival verdadeiramente itinerante, que hoje abrange São Paulo, Rio de Janeiro e os estados do Ceará e da Bahia.

FILMES QUE TRANSFORMAM A CONSCIÊNCIA

De acordo com os curadores da mostra, o público demonstra profundo interesse não apenas pelas aclamadas obras-primas de Mikhail Kalatozov, Sergei Bondarchuk, Andrei Tarkovsky e outros diretores. Filmes que abordam a natureza do fascismo (como "O Fascismo de Todos os Dias", de Mikhail Romm, "Vá e Veja", de Elem Klimov, e "Tigre Branco", de Karen Shakhnazarov) encontram enorme ressonância com os espectadores brasileiros. "As pessoas saem das sessões dizendo: 'Meu mundo mudou completamente! Esses filmes me ajudaram a compreender a essência desse fenômeno'. E percebo que isso ainda acontece no mundo hoje", compartilha Bemfica. "É um tema muito relevante atualmente!", afirma. Os filmes realizados no Mosfilm na década de 1920 também são uma revelação para muitos espectadores, recebendo acolhida entusiasmada.

A principal missão do CPC continua sendo alcançar lugares onde o cinema de qualidade ainda é escasso. A equipe da entidade, composta por um pequeno grupo de pessoas, trabalha principalmente com pequenos cinemas sem fins lucrativos e centros culturais em regiões periféricas. "Nossa atuação cresce à medida que expandimos para mais estados onde encontramos parceiros com a mesma visão", explica Bernardo Torres. "Este ano já tivemos parcerias em dez estados."

Outro grande orgulho do projeto são suas traduções. Desde o início, o CPC tomou uma decisão fundamental: as legendas são produzidas diretamente do russo para o português. "No Brasil, muitas vezes toma-se o áudio em inglês como base para traduções de filmes russos, mas ao fazerem isso muitas nuances e detalhes se perdem", diz Torres. "Queremos preservar o som autêntico e transmitir com precisão a intenção do diretor ao espectador."

A equipe brasileira também organizou o lançamento completo nos cinemas de dois filmes de Karen Shakhnazarov: "Anna Karenina. A História de Vronsky" (2017) e "No Submundo de Moscou" (2023).

FUTURO DIGITAL

A pandemia não impediu o festival em 2020. A mostra foi realizada inteiramente online no canal do CPC no YouTube. Essa experiência inspirou uma nova direção para o futuro. Hoje, a equipe trabalha ativamente em novidades no segmento, e planeja iniciar a dublagem de filmes. "O público digital é muito mais amplo. A geração mais jovem e o público em geral preferem a dublagem, e queremos falar a língua deles, indo além do 'cinema para intelectuais'", afirma Bernardo Torres.

Em novembro deste ano, o Brasil aguarda uma nova Mostra em seu local tradicional, a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, com negociações em andamento para exibições no Rio Grande do Sul e no Ceará. "Continuaremos até cobrirmos todo o país", conclui Valério Bemfica. "O Mosfilm tem uma quantidade enorme de filmes. Com duas ou três dezenas de filmes por ano, teremos trabalho suficiente para muitas décadas! Trata-se de uma ponte cultural que estamos construindo juntos."

Na foto: Alexey Shabalin (Relações Internacionais e Serviço de Distribuição do Mosfilm); Ekaterina Pivinskaya, tradutora; Valério Bemfica, Bernardo Torres e Elena Orel.

 

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